10/12/2015

A advogada antígena!

Paralisação da polícia na capital, o sol acabou de nascer e o celular que acabei de colocar para carregar já começou a travar com tantos áudios, imagens e mensagens de alerta acerca da possibilidade de assaltos e outros crimes alastrarem a capital devido à falta de policiamento...
Planos teóricos mentais: Dispensar o estagiário de ir ao escritório hoje e tentar trabalhar em casa através do computador para evitar maiores transtornos...
Agora doutora, pede para descer do disco voador do mundo fantástico dos pôneis voadores e volta para a realidade da advocacia! Logo as mensagens enviadas durante a noite de clientes ansiosos que não conseguem esperar o dia amanhecer invadem o ambiente sonoro chegando ao celular no momento em que pluguei à tomada para carregar. 
Espera! Áudio enviado às 00h56min? Será que algum cliente foi preso ou sequestrado ou até mesmo abduzido? Vou ouvir...Ah, era só para tirar uma dúvida em relação a quem do casal recém separado tem direito ao fogão de seis bocas...
O celular toca, é do escritório: Doutora, tem uma cliente que veio do interior sem avisar, dá para a senhora vir atendê-la? Claro, cliente em primeiro lugar! Aproveitando minha saída de casa para as ruas de fogo da capital sem policiamento, aproveitei para ir ao Fórum buscar algumas certidões de processos que estão sendo finalizados.
Chegando lá vou até a escrivania e faço a requisição. A escrevente me observa...sinto-me um ser antígeno que acabou de entrar no organismo hospedeiro e é alvejado por exércitos de anticorpos!
Ela me direciona, gastando o menos de energia possível, com mínimos movimentos e palavras sussurradas quase inaudíveis a procurar as certidões na sala da OAB. Chegando lá havia um caderno mais grosso que a bíblia sagrada com centenas de certidões para advogados dativos e eu teria que procurar quais estavam em meu nome, caso quisesse encontrar as minhas.
Depois de uns quarenta minutos folheando a bagunça daquele caderno consegui achar UMA certidão!
Enquanto isto, dezenas de áudios do cliente ansioso permeavam meu celular. O rapaz da OAB disse que poderia haver mais certidões na escrivania tendo em vista que aquelas centenas que folheei eram as enviadas até o mês de julho. Que as posteriores ainda não tinham sido enviadas, ou seja, estavam lá no organismo hospedeiro e eu teria que ali retornar para resgatá-las.
Com sangue nos olhos e espírito guerreiro adentrei àquela escrivania, encarei os anticorpos, ou melhor, os servidores e bradei: olá, por gentileza, alguém de vocês, meus queridos, poderia me fornecer a pastas de certidões de processos extintos para recebimento de honorários dativos, caso não seja incômodo?
Tente tratar mal um servidor de escrivania, seus processos sumirão para sempre! 
Uma senhora saiu por de trás das malhadas, ou melhor, das estantes de processos e sorriu para mim, me auxiliando no que precisei. Sim, ela foi gentil!
O quê? Olhei para trás, seria comigo? Será que um servidor de escrivania finalmente me tratou com educação? Afinal sou uma advogada e devo ser massacrada enquanto houver ar nos pulmões. E não é que era verdade!
Aquela mulher me atendeu com muita boa vontade e eficiência, provando que um funcionário do judiciário pode exercer sua profissão com amor e dedicação. Quem dera pelo menos a metade fosse como aquela amável senhora! Os corredores do fórum seriam mais harmônicos, os advogados mais felizes e menos estressados, até o BADIÃO ficaria contente e o judiciário poderia ser menos moroso.
Graças a Deus não fui assaltada neste dia de reivindicações da polícia, pude chegar ilesa em casa, tirei as dúvidas dos clientes e ainda consegui resgatar DUAS certidões.
Fica meu abraço a todos os servidores do judiciário que exercem seu ofício com eficiência, educação e boa vontade, demonstrando sua superioridade de espírito, até quando o interlocutor seja um advogado! 
E deixo também uma palavra de esperança aos meus colegas de OAB, que sofrem nos balcões e gabinetes almejando o sucesso de seus clientes, muitas vezes destratados por servidores públicos desalmados e ainda são obrigados a explicar ao cliente porque tem direito aos honorários de sucumbência. Foco, força e fé!
Por esta brincadeira, perdão aos ofendidos, luz aos amigos e paz a todos!
Amor pela advocacia!

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